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Absinto: glamur, dependência,

loucura e morte

 

 

Autor: Antônio Salatino

http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.jsp?id=K4787202J5

 

 

 

Figura ao lado - Artemisia absinthium, Losna.

(Fonte: Robert Chiej, The Macdonald Encyclopedia

of Medicinal Plants. Macdonald & Co.,  Londres, 1988)

 

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Vincent van Gogh, um dos mais geniais e conhecidos pintores de todos os tempos, também é famoso devido a dois atos tresloucados: decepou uma das orelhas e se matou com um tiro. É bem provável que ele tivesse propensões próprias a desvios da conduta normal. Mas há fortes indícios de que o artista tenha se tornado uma das numerosas vítimas do absintismo, um mal caracterizado por surtos de alucinações visuais e auditivas, psicoses, insônia, convulsões semelhantes à epilepsia e paralisia. O absintismo provavelmente colaborou para levar Gogh à loucura.

A doença era causada pelo consumo abusivo de absinto, uma bebida alcoólica que continha óleo das folhas e flores de Artemisia absinthium, planta conhecida em português com o nome comum de losna, usada há milhares de anos para expulsar vermes intestinais. Daí o seu nome inglês, wormwood. Embora a eficácia vermífuga do óleo de losna seja cientificamente duvidosa, atribui-se à tuiona (o principal componente do óleo) a sua ação. O óleo é agradavelmente aromático, devido à presença de tuiona e outros componentes voláteis, mas possui também outras substâncias. Algumas delas fazem da losna uma das plantas mais amargas que se conhece. Além de losna, várias outras plantas eram usadas para produzir absinto, entre elas o anis e a melissa. No final, resultava uma bebida contendo algo em torno de 70% de álcool.

 

A HORA VERDE

 

Acredita-se que o hábito de consumir absinto tenha se expandido na França a partir da década de 1840 por soldados regressos da guerra da Algéria, onde misturavam extrato de losna ao vinho para prevenir-se contra ataques febris. Da França, o hábito passou a outros países europeus e Estados Unidos. Muitos artistas e pessoas bem situadas socialmente apreciavam a bebida, que traria estímulo criativo e mental, além de propiciar (segundo os apreciadores) novas experiências psíquicas. Em Paris, o hábito de preparar e degustar a bebida nas mesas dos cafés ficou conhecida como l´heure verte (“a hora verde”). Uma dose de absinto era colocada pelo garçom num copo e apoiava-se sobre ele uma colher plana e perfurada, na qual se colocava um cubo de açúcar. Adicionava-se então água fria. O açúcar revertia o sabor amargo desagradável e, como mágica, a água transformava o absinto, de um verde cristalino, a um dourado leitoso. A colher, o cubo de açúcar e o acréscimo de água eram partes importantes da mística e charme da “hora verde”. Artistas celebrizaram o ritual em telas hoje valiosíssimas. Entre os pintores mais conhecidos, incluem-se Manet, Degas, Toulouse-Lautrec (que retratou Gogh diante de uma taça de absinto), Rafaelli e Picasso.


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Edgar Degas - O absinto (1876)
Fonte - http://www.coresprimarias.com.br/ed_4/academia_julian3_p.php

 

CONDENAÇÃO E BANIMENTO

 

Embora o álcool também exercesse efeitos danosos ao cérebro, experimentos cuidadosos provaram, já naquela época, que o óleo de losna é o agente responsável pelos sintomas do absintismo. A tuiona foi isolada em 1900. Demonstrou-se que ela causa excitação do sistema nervoso autônomo, seguida

de inconsciência e convulsões. São efeitos parecidos aos da cânfora, que possui estrutura química semelhante. O absinto era também alucinogênico e provocava dependência, tendo sido causa de muitas tragédias. Na Inglaterra, sob o efeito do absinto, um cidadão socialmente bem situado matou suas duas filhas, a esposa grávida e tentou o suicídio. Diante das evidências sobre os malefícios que ele causava, o absinto foi banido em 1915. Produtores de absinto logo introduziram em seu lugar outras bebidas alcoólicas aromáticas, como o Pernod (disponível até hoje). A losna permaneceu como componente de algumas outras bebidas, como o vermute. A esse respeito, não deixa de ser sugestivo o nome da losna em alemão: Wermut.

Recentemente, sugeriu-se que a tuiona seria ativa sobre os mesmos receptores cerebrais do tetra-hidrocanabinol, o princípio ativo da maconha. No entanto, verificou-se que a ativação dos receptores canabinóides pela tuiona é muito fraca. Na verdade, experimentos publicados neste ano indicam que a tuiona é um modulador do receptor tipo A do ácido gama-aminobutírico.

 

NOSTALGIA, INTERNET E NOVOS PROBLEMAS

 

Na Europa e Estados Unidos, vive-se de algum tempo para cá um período de saudosismo, com uma revivescência da época vitoriana nas artes e costumes. Essa influência trouxe de volta o perigoso hábito de render-se ao fascínio do absinto. A tendência atingiu até mesmo São Paulo, onde casas noturnas andaram colocando a disposição dos freqüentadores uma bebida que, supostamente, seria o absinto. Tão temerário quanto o comércio de um produto banido há décadas pelos prejuízos que indubitavelmente causa, é a oferta via Internet de produtos ligados ao absinto. Óleo de losna (wormwood oil) vem sendo comercializado pela rede, tendo-se registrado acidentes graves de intoxicação. Nos Estados Unidos, um homem ingeriu 10 centímetros cúbicos do óleo adquirido via rede, supondo tratar-se de absinto. Foi hospitalizado com alucinações, convulsões e crise renal aguda.

 

IRONIA

 

Paul Gachet, médico francês, cuidou de van Gogh durante os últimos meses de vida. Seu respeito e admiração pelo artista levou-o a plantar uma árvore de tuia (um pinheiro nativo do Hemisfério Norte) no túmulo do pintor. Como a grande maioria dos verdadeiros artistas, van Gogh tinha uma grande sensibilidade e veneração pela natureza, e a tuia era uma das plantas que ele mais amava. Ironicamente, a tuia é uma das fontes mais ricas em tuiona, e foi de uma árvore de tuia que pela primeira vez se obteve a substância que provavelmente levou van Gogh à loucura e à morte.


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Comentários – por Suzana Ursi

 

   Lembro-me muito bem de um fato ocorrido quando fiz meu estágio de Licenciatura (em 1998, escola da Zona Norte de São Paulo). O professor supervisor perguntou que tema eu gostaria de abordar na aula que ministraria à classe. Sugeri `Drogas`, o que foi prontamente rejeitado pelo professor, devido ao risco de represálias por parte de traficantes da área. Fiquei muito chocada e mudei meu tema. Recentemente, tenho escutado vários colegas dizendo que realmente é complicado abordar o tema.

 

   O material apresentado acima pelo Prof. Salatino pode ser uma alternativa bem inovadora e interessante para introduzir o tema de modo “sutil”. Vejam que o tema “explícito” da aula pode ser algo como “Substâncias de Plantas e Arte”. Com habilidade, o professor pode abordar a questão dos malefícios das drogas a partir de informações sobre uma substância diferente das mais populares atualmente. Essa pode ser uma boa estratégia para burlar as imposições aviltantes de bandidos em sala de aula!


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